Infestação de ratos assola comunidade de favela no Brasil

 

As favelas de Pau da Lima, bairro de Salvador-BA, sofrem com infestações de ratos. Os roedores deixam suas marcas nas paredes, no chão, lixo e até mesmo no sangue das pessoas. Vários moradores do bairro possuem anticorpos para a Leptospira, uma bactéria encontrada na urina do rato, e que pode causar doenças fatais.

A leptospirose é comum em Pau da Lima, e foi ela que matou a esposa de Carlos Bautista. A garota tinha 22 anos de idade, e morreu de forma inesperada após complicações no pulmão causadas pela doença. Após a morte da mulher, Carlos mandou as crianças para a casa dos avós, para que cresçam longe dos ratos.

As interações entre os seres humanos e os ratos, existentes em Pau da Lima, são alvo de investigações duradouras por parte de cientistas. O objetivo é tentar entender as forças por trás da leptospirose, que chega a matar 60 mil pessoas por ano em todo o mundo. Além disso, há esforços também no sentido de encontrar uma melhor forma de tratar, cura e evitar a doença.

Pau da Lima, em Salvador-BA / © Mauricio Susin
Pau da Lima, em Salvador-BA / © Mauricio Susin

E não é apenas em Pau da Lima que os ratos atacam e causam mortes. “Quando pensamos no guetos de Jakarta, Manila ou Cali, na Colômbia, o que você vê em Pau da Lima é exatamente o que é visto nessas áreas, se não é pior”, diz Albert Ko, médico e especialista na Yale University, em entrevista a Warren Cornwall, do ScienceMag. Para ele, há urgência no sentido de encontrar soluções imediatas para o problema.

Albert Ko é um dos principais pesquisadores que atuam em Pau da Lima, e está envolvido com o bairro desde 1996, quando começaram a chegar em Salvador uma grande quantidade de pessoas com problemas renais. O médico conta que naquela época a leptospirose era considerada uma doença rural – já que em ambientes rurais as pessoas muitas vezes entram em contato com água contaminada pela urina de outros animais.

Assustado, Ko e seus colegas gastaram um ano investigando o surto da doença. Os resultados, lançados ao público em 1999 em um artigo do ‘The Lancet’, foi um dos primeiros a alertar o mundo de que a infecção estava se espalhando para as cidades. Dentro de um período de oito meses, eles encontraram 326 casos severos – com 50 mortos, e descobriram que o vilão era o Leptospira, encontrado principalmente em ratos. Eles perceberam que as infecções ocorriam principalmente depois de chuvas intensas, e que a maioria das doenças aconteciam nas favelas, como Pau da Lima.

Pesquisad Arsinoê realizando uma necropsia em um rato encontrado na região. / © Mauricio Susin
Pesquisad Arsinoê realizando uma necropsia em um rato encontrado na região. / © Mauricio Susin

Então desde 2001 a vizinhança começou a ser estudada com afinco, inclusive com investimentos de fundações e empresas, para tentar entender os detalhes da doença. Tudo isso foi possível com a ajuda de moradores locais e cientistas recrutados. O resultado disso, de acordo com os pesquisadores, foi um estudo pioneiro sobre a leptospirose, um problema que até então era extremamente negligenciado.

O ecologista Arsinoê Pertile é um dos que estudou os ratos de Pau da Lima para tentar entender a doença e como ela estava afetando os moradores do bairro – que literalmente se amontoavam em um pequeno espaço físico. Para realizar a pesquisa, Arsionê dissecava os ratos, analisando o tamanho, gênero, e retirando exemplares. De acordo com a pesquisa, cerca de 80% dos ratos do local possuía Leptospira.

Mas apenas matar os ratos não seria uma alternativa de sucesso para terminar com a leptospirose. Isso porque os pesquisadores descobriram que a água também é uma das culpadas pela transmissão da doença. Isso se dá principalmente pelo fato de que a água no local é normalmente mal tratada e sem condições básicas de higiene e saneamento.

Mesmo em cidades saudáveis os ratos podem transmitir leptospirose, mas o número de casos em seres humanos é pequeno – já que as infraestruturas mais modernas possuem melhores condições de tratamento da água da chuva e distribuição de água potável. Mas esse não é o caso em Pau da Lima, onde os esgotos rolam em céu aberto, e transbordam durante as épocas mais chuvosas, levando água lodosa – e contaminada – até a casa das pessoas.

Os pesquisadores descobriram que, em Pau da Lima, 3,2% dos moradores eram infectados todos os anos. Uma a cada 30 dessas infecções causavam a leptospirose e aproximadamente um a cada 200 casos causava quadros severos e complicações.

Estudos publicados no últimos três anos também explicam os fatores de risco. Casas com sinais de infestações de ratos são duas vezes mais propensas à infecções, por exemplo. Um outro fator pode ser a pobreza extrema. O perigo aumenta à medida em que as pessoas vivem em condições mais precárias. De acordo com um dos estudos sobre o tema, a chance de infecção cai pela metade a cada dólar por dia que uma pessoa ganha.

No começo do trabalho em Pau da Lima, líderes comunitários e cientistas conseguiram uma verba de 36 milhões de reais para construir uma rua pavimentada e um esgoto bem estruturado atendendo grande parte do bairro. No entanto, apenas uma parte do projeto já foi construído até hoje. Os esgotos seguem correndo em céu aberto, e a rua ainda não possui pavimento. Entre os problemas que impediram a implantação total do projeto, está a interferências de gangues locais, que impediram as obras temendo que a polícia tivesse maior acesso à área com a pavimentação das ruas.

Por conta dessas dificuldades, os cientistas estão procurando maneiras mais baratas e rápidas de lutar contra a leptospirose. Eles pretendem realizar campanhas de extermínio, bem como educar as pessoas a utilizar botas de borracha para se proteger, por exemplo. Além disso, pretendem aprimorar e ampliar a utilização de modelos de computador que simulam a maneira como as pessoas, ratos e bactérias convivem na região.

Com essas ações, pretendem pelo menos esboçar reação a um problema que mata, assusta e assola os moradores da comunidade.

Fonte: ScienceMag

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