Introdução à Antropologia

Afinal, o que é Antropologia?

Antropologia é o estudo do homem e sua cultura, a partir da perspectiva de diferentes ciências. Apesar de ser um campo multidisciplinar, isto é, que envolve diversas áreas científicas e filosóficas em seu escopo, como a arqueologia, as ciências biológicas, a linguística e a antropologia sociocultural. Neste texto, iremos nos focar na antropologia sociocultural, pois em seu escopo ela reúne algumas das principais teorias da cultura.

As teorias da cultura surgiram com a intenção de compreender o homem e sua cultura a partir da perspectiva empírica, com isso, várias correntes teóricas na antropologia foram estabelecidas, algumas acabaram como pseudociências, como o evolucionismo social (que reúne os principais pressupostos pseudocientíficos do “Darwinismo Social”), outras não resistiram ao escrutínio cético e as evidências.

Uma história conturbada

No século XVI, com as grandes navegações, a troca cultural – também chamada de aculturação -, desempenhou um papel importante em variadas civilizações, com resultados que implicariam na transmissão de certos elementos culturais de uma sociedade para outra, esses elementos culturais provindos de outros sistemas culturais, poderiam ser encontrados tanto na religião como na política.

Com o sucesso das grandes navegações, às conquistas de novos mundos, o desenvolvimento do método científico, a revolução francesa que lutou por ideais que favoreceram a liberdade de pensamento, e a consolidação do positivismo e do cientificismo no século XIX, desencadeado principalmente pelas descobertas de Charles Darwin, o homem passou a dar mais valor ao objetivismo, se afastando assim do subjetivismo até então presente em algumas correntes filosóficas, e com isso surge à curiosidade do homem em compreender sua origem e seu meio em que vive a partir da perspectiva científica.

Com essa mudança de postura no modo de pensar, nascera à Antropologia. O seu objeto de estudo, o homem e seu meio, passou a ser conferido como algo observável, mensurável, passível de ser estudado estatisticamente e experimentalmente, consolidando até então um novo cerne no conhecimento científico.

Antropologia nasce em meio às ideias recém-descobertas de Charles Darwin, a primeira teoria foi a do evolucionismo, que basicamente se utiliza de uma comparação hierárquica em relação ao homem europeu, sendo o mesmo rotulado como o estágio “mais evoluído” juntamente com sua civilização, em relação às outras civilizações e diferentes culturas. Portanto, essa comparação parte de um pressuposto etnocêntrico e eurocêntrico.

As interpretações de diferentes civilizações através destes pressupostos (etnocêntricos e eurocêntricos) partiram de interpretações monogenistas, da qual diz que há um caminho linear e finalista para o processo evolutivo, enquanto a outra da interpretação poligenista, que também não descartava a concepção evolutiva e, portanto, defendia que as diferenças provinham da existência de diferentes culturas, onde os homens teriam distintas origens e que isso explicaria suas diferenças físicas e morais a partir da sociedade europeia.

Neste meio termo nascia o Darwinismo Social, uma das mais famosas deturpações pseudocientíficas da teoria da evolução, que culminou em eugenia.

Darwinismo Social e Eugenia

Herbert Spencer, admirador de Darwin, foi quem criou o “Darwinismo Social”, em sua busca por aplicar a teoria da evolução a todos os níveis da atividade humana.

Basicamente, o “Darwinismo Social” foi uma tentativa de justificar a sobrevivência de indivíduos ou mesmo empresas usando as ideias – até então deturpadas – de Darwin.

Apesar de terem distorcido praticamente tudo, eles criaram um mecanismo completamente oposto à teoria da evolução, a eugenia. O problema é que quando você cria um sistema de “purificação racial”, você não estará limpando a sua espécie ou trazendo algum grau de pureza por trás da “superioridade racial”, a ideia vai bem longe disso, pois não existe superioridade ou inferioridade na biologia, e “purificar”, significaria destruir e excluir genes externos, o que levaria a uma diminuição na variabilidade genética da população, e isso é o oposto da evolução.

Quanto mais diversidade biológica, mais fenótipos você tem para sobreviver em ambientes com dinâmicas diferentes. Se você excluir, visando uma única raça, você estará podando a variabilidade de um elenco de genes que te favorecem em uma determinada situação.

A parte do qual o “Darwinismo Social” fundamenta comportamentos imorais, é um equívoco triplo. Pois, primeiro diluiria a especificidade da natureza humana a uma natureza genética, desconsiderando o fato de que somos natureza com atributos próprios que nos definem como espécie (cultura, história, trabalho, etc.). Segundo, acabaria forçando o ideológico discurso de orientação liberal de que é natural para a evolução a eliminação dos mais fracos, ou seja, que seria eticamente válido a desigualdade socioeconômica e a miséria. Geralmente, os criacionistas não sabem o que Darwin quis dizer com evolução por seleção natural, por isso levam as suas alegações para um discurso antiético e descontextualizado. Terceiro, ignora o contexto histórico em que Darwin formula os paradigmas dominantes naquele momento de expansão do capitalismo e tratam a cultura europeia como única válida. Além da distorcida biologização da política e politização da biologia no nazismo, num uso tendencioso da antropologia para justificar a existência de raças ou de desigualdades.

Difusionismo

Uma corrente teórica que surgiu contrapondo radicalmente o evolucionismo, foi o difusionismo, que se caracterizou pela anti-unilinearidade, ou seja, não admitia a reta constante e ascendente cultural defendida pelos evolucionistas e, portanto a cultura para o difusionismo era um mosaico de traços advindos de outras culturas precursoras com várias origens e histórias.

Segundo os difusionistas, “o homem originário teria vivido em pequenos grupos isolados, com o tempo criaram ciclos culturais bem caracterizados, resultantes do confronto de diferentes grupos com diferentes meios”. A partir dessas ideias nasceram as primeiras teorias sobre o contato e troca cultural entre sociedades diferentes.

No difusionismo privilegia-se o entendimento da natureza da cultura, em termos de origem e extensão, de uma sociedade a outra. Para o difusionista, o empréstimo cultural seria um mecanismo fundamental de evolução cultural, e acreditava-se que as diferenças e semelhanças culturais eram consequência da tendência humana em imitar e absorver traços culturais.

Enquanto isso, as teorias evolucionistas começavam a cair no esquecimento devido a sua tese explicativa de diferenças biológicas, culturais e intelectuais. Nesse contexto, o evolucionismo de Spencer até então propagado por suas teses pseudocientíficas, dava lugar a uma nova corrente teórica, a do funcionalismo, no início do século XX, cujo seu precursor foi o antropólogo Bronislaw Kasper Malinowski, considerado um dos fundadores da Antropologia Social.

Funcionalismo

O funcionalismo de Malinowski abandonava a mecanicidade da escala evolutiva, focalizando as culturas diversas em situação, ou seja, a partir de sua própria contextualização.

Os funcionalistas buscaram explicar os fenômenos em termos das suas funções. Assim, cada fato social seria determinado por uma ou várias funções, e cada elemento da cultura destinaria a cumprir uma determinada tarefa dentro de uma estrutura social mais abrangente.

A abordagem dessa corrente foi criticada por sua tentativa de assimilar as culturas a organismo, enfatizando o equilíbrio e a estabilidade do todo, de modo que conflitos ou mudanças eram considerados como anomalias.

Depois disso, mais uma nova corrente antropológica nascia, o estruturalismo.

Estruturalismo de Lévi-Strauss

Claude Lévi-Strauss, fundador da antropologia estruturalista, em meados da década de 1950, foi um renomado antropólogo, professor e filósofo francês, além de ser considerado um dos grandes intelectuais do século XX.

Sua corrente estruturalista se consolidou a partir de seus estudos sobre os povos indígenas do Brasil. Os pressupostos dessa corrente teórica foram publicados em duas de suas principais obras, “As Estruturas Elementares do Parentesco” (1949), e “Tristes Trópicos” (1955), que o colocaram no cenário mundial.

Lévi-Strauss fez uso da teoria estruturalista francesa, a qual pressupunha que “estruturas universais” estariam por trás de todas as ações humanas, dando forma às culturas em suas mais variadas manifestações como linguagem, mitos, e religiões. Com a aplicação do método estruturalista ao conjunto dos fatos humanos de natureza simbólica, possibilitou ao pesquisador estudar o “pensamento selvagem”. Lévi-Strauss defendia a tese de que o “pensamento selvagem” poderia ser encontrado em cada um de nós, com isso ele distinguiu-se notoriamente dos demais antropólogos que buscavam analisar e revelar diferenças entre povos e culturas, na maioria das vezes valorativas, enquanto ele buscava as estruturas universais, chamadas de “estruturas profundas”.

Lévi-Strauss adotou uma postura relativista no estudo de povos e culturas. Suas pesquisas estavam concentradas nos sentidos profundos das ações humanas e de seus produtos, na busca pela essência, e não pela aparência. Seu método permitiu compreender que sociedades tribais relevam notáveis sistemas lógicos, de qualidades mentais racionais tão sofisticadas quanto às de sociedades até então tidas como superiores a partir dos pressupostos da corrente evolucionista. Sua teoria desmontava convicções comumente aceitas de que as sociedades primitivas seriam intelectualmente pobres e irracionais, e que suas ações e obras, consistiriam de um pobre repertório cultural. Os pressupostos teóricos desta abordagem foram publicados na “O Pensamento Selvagem” (1962). Felizmente, sob esses novos pressupostos teóricos, a visão negativa sobre as tribos primitivas estava fadada a desaparecer.

Conclusão

Existem outras correntes na antropologia que buscam compreender outros aspectos do homem e sua cultura, como a arte, a economia, a sua história, a política, etc. Não existe uma linha teórica na antropologia, mas várias, com diferentes concepções e problemas epistemológicos para serem trabalhados. Principalmente ao adotarmos o relativismo cultural, em sua totalidade, nos estudos de diferentes civilizações, ignorando os pressupostos mais básicos que tornam a filosofia moral uma área significativa na problemática da moralidade universal.

Todas essas sofisticadas abordagens antropológicas em compreender o homem e sua cultura, resultaram progressos intelectuais em nossa sociedade, é comum, por exemplo, encontrarmos alguns aspectos culturais na região sudeste provindos do continente asiático, como a popularização da culinária japonesa, e alguns ensinamentos filosóficos de origem budista.

Com os avanços nos estudos antropológicos, percebemos que alguns aspectos culturais, seja por meio da política ou da religião, podem ter aplicações práticas em nossa sociedade, a diversidade cultural não nos coloca em um lugar privilegiado, mas em um lugar igualitário onde cada civilização busca componentes de outras para construir uma sociedade melhor, principalmente para modular os seus princípios éticos e morais.

As trocas de informações entre diferentes povos facilitaram a eliminação de preconceitos que estavam enraizados (em alguns casos, ainda estão) em nossa sociedade com relação a distintas civilizações e culturas.

Talvez, o aspecto semelhante mais importante dessas diversas civilizações e culturas, é a busca pelo saber, aparentemente todos estão engajados em encontrar o nosso lugar cosmos. A busca em saber o que somos, porque existimos e para onde vamos, é que nos motiva a seguir em frente.


Leituras Complementares

REIS, Nicoli Isabel dos; “Resenha de BOAS, Franz. Antropologia cultural. Org. Celso Castro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. 109 p.”; portal Scielo, disponível no link:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832004000200015&script=sci_arttext

FONSECA, Dilaze Mirela; PACHECO, Marina Rute; “Difusionismo e Evolucionismo”; site ant1mcc, disponível no link:
http://ant1mcc.blogspot.com/2009/04/difusionismo-e-evolucionismo.html

SCHWARCZ, Lilia K. Moritz;; “História e Etnologia. Lévi-Strauss e os embates em região de fronteira”; portal Scielo, disponível no link:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-77011999000100011&script=sci_arttext

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