Artigos científicos, notícias e muito mais.

Os EUA planejavam detonar bombas nucleares na Lua durante a Guerra Fria

No meio do progresso científico, dos grandes egos e da loucura geral da Guerra Fria, os EUA queriam lançar uma bomba nuclear sobre a Lua. A ideia foi vendida como sendo do interesse da ciência, mas realmente era apenas um grande dedo médio para a URSS. Como se esse conto cauteloso não pudesse ficar mais estranho, o jovem Carl Sagan foi uma das brilhantes faíscas usadas para corroborar o plano.

Um relatório desclassificado pelo Centro de Armas Nucleares da Força Aérea de junho de 1959 mostra quão seriamente eles consideraram o plano, chamado Projeto A119. Em geral, eles queriam investigar a capacidade das armas no espaço, bem como obter mais informações sobre o ambiente espacial e a detenção de dispositivos nucleares.

O relatório explica: “A motivação para tal detonação é claramente tripla: científica, militar e política”. Dentro das 190 páginas, eles discutem longamente os possíveis efeitos sobre a superfície lunar, como eles poderiam realizar observações sísmicas na Lua durante a explosão e quanto tempo as radiações poderiam durar.

A ideia deles era derrubar uma pequena ogiva nuclear W25 junto ao terminador da Lua (a divisão entre as partes iluminadas e sombreadas). Isso significa que a nuvem de cogumelos seria iluminada pelo Sol e poderia ser vista da Terra e, em particular, visível a partir de Moscou. Todas as pesquisas mostraram que eles realmente tinham a capacidade tecnológica para fazer isso.

A bomba teria um rendimento de 1,7 quiloton. Isso é relativamente baixo para uma bomba, mas mesmo assim não é pouco. Para entender o contexto, você pode assistir ao vídeo abaixo que mostra a bomba RDS-37 soviética de 1,6 quiloton. Como você pode ver, ainda é absolutamente aterrorizante.

O grande plano do Projeto A119 foi liderado pelo Dr. Leonard Reiffel (que mais tarde se tornou o vice-diretor do programa Apollo da NASA), altos funcionários da Força Aérea dos EUA e alguns dos principais cientistas do ocidente, incluindo Gerard Kuiper, figura conhecida na ciência planetária moderna.

Carl Sagan, o lendário propagador da ciência, também trabalhou no projeto. Anos antes de se tornar um crítico franco de armas nucleares, ele foi contratado por Reiffel para estudar o quão grande e visível uma nuvem de poeira explodindo no espaço ao redor da lua seria. O nome de Sagan aparece mesmo na lista de contribuintes do relatório.

De fato, essa história só veio à tona porque o autor Keay Davidson estava fazendo pesquisas para uma biografia sobre Sagan, chamada “Carl Sagan: A Life” no final da década de 1990. Davidson manteve-se quieto, mas a informação foi publicada eventualmente em uma revisão do livro. Uma vez que os rumores já haviam sido espalhados, Reiffel foi a primeira pessoa a oficialmente “ir a público” revelar o plano em 2000.

Em entrevista ao The Observer pouco depois da revelação do plano, o Dr. Reiffel disse que a ciência tinha pouco a ver com esse plano excêntrico. No calor da Guerra Fria, tratava-se de flexionar os músculos.

“Ficou claro que o objetivo principal da detonação proposta era um exercício político e uma demonstração de força. A Força Aérea queria uma nuvem de cogumelos tão grande que seria visível na Terra “, disse Reiffel. “Os EUA estavam atrasados na corrida espacial”.

Felizmente, o plano nunca chegou à se concretizar. Eles acabaram por colocar freios depois de temerem uma possível reação negativa do público.

“Eu deixei claro na época que haveria um enorme custo para a ciência se destruíssemos um ambiente lunar imaculado, mas a Força Aérea dos EUA estava preocupada sobre como a explosão nuclear poderia ser útil para o jogo na Terra”, acrescentou Reiffel.

Acredita-se que a URSS tinha um plano semelhante ao A119, embora quase nada se saiba à respeito. Mesmo assim, é muito provável que sua trama fosse uma resposta apressada por ouvir sobre os planos dos EUA.

Hoje em dia, há uma série de empecilhos legais para frear países que pretendam usar a lua como seu playground da armas nucleares. O Tratado de Proibição Parcial de Ensaios Nucleares em 1963 e o Tratado do Espaço Exterior em 1967 proíbem os países de detonarem um dispositivo nuclear sobre ou ao redor da Lua.

Comentários
Carregando...