Por que os antibióticos não funcionam como antes?

Façamos uma viagem para 1938. Pode-se dizer que foi bem ruim se machucar naquela época. Se por ventura alguém se cortasse com algo e pegasse uma infecção – naquela época chamada de envenenamento do sangue – essa pessoa certamente já poderia ir preparando testamento. Na verdade, olhando o passado, observa-se que as pessoas não morriam de câncer ou doença cardíaca, pois não tinham tempo para desenvolvê-las. Elas morriam basicamente de ferimentos infeccionados.

Felizmente, apenas três anos no futuro, 1941, o primeiro teste com penicilina foi feito. A chegada dos antibióticos mudou a forma como se via as infecções. Se num dia se morria por causa delas, no outro a recuperação era quase certa. E assim, passou-se a viver a era de ouro dos antibióticos. Foi bom enquanto durou, pois estamos chegando ao final desse período dourado.

A penicilina começou a ser distribuída em 1943, e resistência à penicilina generalizada chegou de 1945. A vancomicina chegou em 1972, resistência à vancomicina em 1988. A imipenem chegou em 1985, e a resistência em 1998. A daptomicina, um dos medicamentos mais recentes, em 2003, e resistência a ele apenas um ano depois, em 2004.

Estamos a 70 anos nesse jogo de saltar de uma droga a outra, e agora o jogo está terminando. As bactérias estão desenvolvendo suas resistências tão rapidamente que as empresas farmacêuticas estão perdendo o interesse em produzir novos antibióticos.2978316-remedios-para-emagrecer

Seria natural esperar que as infecções das quais os antibióticos existentes não dão conta são casos extraordinários, mas, na verdade, apenas nos Estados Unidos e na Europa, 50.000 pessoas morrem por ano de infecções em que não há medicamentos para ajudar. Um projeto fretado pelo governo britânico conhecido como O Comentário sobre Resistência Antimicrobiana estima que o número de vítimas em todo o mundo é de 700.000 mortes por ano.

Não obstante, os problemas relacionados à resistência das bactérias a antibióticos passa pela perda de proteção a pacientes com imunidade enfraquecida (pacientes com câncer, AIDS, transplantados, bebês prematuros), por tratamentos que instalam objetos estranhos no corpo, como bombas para diabetes, por exemplo, e até o risco de perder a possibilidade de realizar cirurgias.

Infelizmente, o mau uso dos antibióticos contribuiu e continua contribuindo para que as bactérias desenvolvam suas resistências mais rapidamente. Embora essa guerra seja assimétrica, é possível que o resultado final seja mudado. É possível criar sistemas que verifiquem a real necessidade do uso dos antibióticos prescritos nas receitas médicas além de exigir que a agricultura desista do uso de antibióticos, por exemplo.

Atrelada a essas soluções tecnológicas, é possível que se faça campanhas para que aos poucos a cultura do mundo quanto ao uso de antibióticos seja mudada. Mesclando essas ações, pode-se retardar a chegada do mundo pós-antibiótico.

Baseado na Talk de Maryn McKenna: What do we do when antibiotics don’t work any more? (Filmed March 2015 at TED2015).

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