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Serpentes estão devastando todo o ecossistema de uma ilha – inclusive as árvores

Por Mike Mcrae | Science Alert

Traduzido e adaptado por Matheus Gonçalves.

 

Caso você ainda não esteja familiarizado com o problema das cobras em Guam, a ilha é conhecida por sofrer com uma invasão de cobras marrons venenosas que causaram estragos em sua população animal nativa.

Agora os pesquisadores têm mostrado que não são apenas os pássaros e roedores que sofreram. O crescimento de novas árvores pode estar reduzido em até 92% graças ao apetite das cobras.

A ilha de Guam, com 544 quilômetros quadrados, é um território estadunidense no meio do caminho entre a Austrália e o Japão, famoso por ter sido controlado pelos japoneses na Segunda Guerra Mundial, antes de ser libertado pelos EUA em 1944.

Outro ponto notório é o fato de estar povoada por espécimes da cobra arbórea marrom (Boiga irregularis), que apareceram na ilha em torno da época da sua libertação. O mais provável é que tenha embarcado junto dos militares dos EUA em uma viagem saindo de Papua Nova Guiné.

A espécie não é excessivamente perigosa aos humanos, embora sua venenosa picada seja fatal para animais pequenos.

Como os animais selvagens de Guam evoluíram sem cobras como predadoras de seus ovos e jovens, as florestas se tornaram um banquete para os invasores, fazendo sua população se expandir para aproximadamente 2 milhões de cobras – o equivalente a 5 mil cobras por quilômetro quadrado. As cobras são tão abundantes que nos últimos 7 anos causaram cerca de 4,5 milhões de dólares em prejuízos a sistemas elétricos por causarem curto circuito.

No entanto, o ecossistema foi a maior vítima. Na década de 1980, 10 das 12 aves nativas de Guam tinham desaparecido – incluindo uma espécie de martim-pescador que só podia ser encontrado lá.

O pesquisador Haldre Rogers, da Universidade do Colorado (EUA), disse que as cobras devastaram a população de aves de forma que a ilha caiu em um estranho silêncio.

Agora, parece que a devastação dos pássaros está tendo efeito na população de árvores da ilha, segundo um estudo publicado por Rogers e sua equipe. Os pesquisadores colocaram grandes cestos sob duas espécies de árvores nas florestas de Guam e de outras ilhas vizinhas, interessados em saber até onde as árvores frutíferas espalham suas sementes no chão da floresta.

Em Guam, menos de 10% das sementes foram além da vizinhança imediata da árvore de origem, enquanto o número chega a 60% nas ilhas vizinhas. “Além dos morcegos de frutas, que também estão quase extintos em Guam, nada mais pode dispersar as sementes”, explicou Rogers.

Nos últimos anos, o Departamento de Agricultura dos EUA envolveu-se em uma guerra química contra as cobras em um programa de erradicação que custou 8 milhões de dólares. Sua arma? Uma dose de paracetamol – que é tóxico para muitos animais, incluindo cobras marrons.

Ao invés de esperar que 2 milhões de cobras sintam dor de cabeça, o programa amarrou em árvores locais milhares de ratos mortos presos ao medicamento, esperando que eles fossem comidos por uma cobra. A pesquisa preliminar mostrou que as serpentes capturavam a isca, mas não há notícias do impacto do programa sobre as cobras.

Como Guam é a casa de muitas bases militares e possui um grande porto, o medo é que as serpentes resolvam fazer um passeio por outra ilha da região e causem um problema similar.

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