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Tratamento de choque: A conturbada história da terapia eletroconvulsiva

Originalmente por Jonathan Sadowsky, em LiveScience.
Traduzido e adaptado por Leonardo Ambrosio.

Mais cedo neste mês, a atriz Carrie Fisher, que fez o papel de Princesa Leia em Star Wars, faleceu aos 60 anos, causando intensa comoção no mundo inteiro. Mas além da atriz que interpretou um dos papeis mais importantes da história do cinema, Carrie Fisher será também lembrada como uma pessoa batalhadora, que lidou de maneira bem-humorada e corajosa com um distúrbio mental. Além de ter coragem de enfrentar e falar sobre suas condições mentais, Carrie chamou a atenção ao declarar realizar voluntariamente sessões de terapia eletroconvulsiva (ECT), um tratamento estigmatizado e visto por muitos com maus olhos.

A ECT é praticada há pelo menos 80 anos, e consiste na alteração da atividade cerebral por meio de correntes elétricas. Durante as sessões, os pacientes recebem anestesia geral, e em seguida são aplicadas correntes elétricas no cérebro, em um procedimento que até hoje é muito criticado, apesar de psiquiatras, estudiosos e até mesmo os pacientes afirmarem que se trata de uma técnica segura e efetiva. Não por menos, a ECT, que também é chamada por alguns de “terapia de choque” é apresentada de maneira pejorativa e crítica em diversas obras literárias e cinematográficas.

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Máquina de ECT. / Por Rodw, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

O professor Jonathan Sadowsky, historiador de psiquiatria, escreveu um livro sobre a história da ECT e detalhou o procedimento em um artigo publicado no portal americano LiveScience.

A ECT, segundo Sadowsky, tem origens na Itália, no ano de 1930, e consiste desde então na indução de convulsões como um método de tratamento. Já em 1930, os psiquiatras sabiam que a indução de convulsões podia aliviar sintomas de condições mentais, mas isso era realizado anteriormente por meio do uso de produtos químicos, como o chamado Metrazol, diz o professor. Sadowsky diz que o Metrazol costumava proporcionar uma sensação de medo nos pacientes, um pouco antes das convulsões, e que não era raro ver enfermeiras correndo atrás dos pacientes para dar-lhes o remédio. Então, por mais irônico que isso pareça, a criação da ECT serviu justamente como um “método mais humano” para trabalhar com as convulsões.

De acordo com o professor, a terapia era perigosa fisicamente no começo da sua aplicação, mas hoje em dia os riscos já podem ser mitigados, por exemplo, com o uso de relaxantes musculares, bem como a anestesia. Além dos problemas físicos, a ECT também foi utilizada para outros fins além do tratamento de doenças mentais. Conforme afirma Sadowsky, o tratamento era utilizado muitas vezes para “acalmar” os pacientes mais complicados, em uma atitude para manter o controle em nos locais em que se tratavam os pacientes. Além disso, a ECT chegou a ser utilizada para “tratar” homossexuais – naquela época, a homossexualidade era considerada um distúrbio mental. Segundo o especialista, no entanto, esse tipo de prática não durou por muito tempo, e não houve nenhuma evidência de alteração na sexualidade dos indivíduos por meio da terapia eletroconvulsiva.

Sadowsky também relata que em meados de 1960, floresceu um movimento chamado de antipsiquiatria, formado por pessoas que criticavam os tratamentos oferecidos pelos psiquiatras e em casos mais extremos inclusive questionava a existência de doenças mentais. Para o professor, isso sugere de onde pode ter surgido essas divergências a respeito da ECT, visto que o tratamento era um dos mais visados e criticados pelos movimentos. Depois de enfrentar um declínio durante os anos entre 1960 e 1970, a prática voltou a ser utilizada em meados de 1980, conta o autor, sendo inclusive divulgada por celebridades (como Fisher).

Com a chegada do que Sadowsky chama de “era do Prozac”, o professor diz que nossa cultura se tornou mais confortável com os tratamentos físicos oferecidos aos que sofrem de condições mentais. Muitos psiquiatras dizem, inclusive, que alguns pacientes retornam aos consultórios depois do tratamento para novas sessões voluntárias da ECT.

O professor ainda cita em seu artigo um dos efeitos colaterais mais conhecidos da ECT: a perda de memória. Para ele não há dúvida que o tratamento por vezes causa alguma perda de memória, particularmente daquela relacionada a eventos próximos ao momento em que a terapia foi aplicada. Essas memórias algumas vezes acabam voltando, mas alguns pacientes relatam certas perdas permanentes de memória. Sadowsky afirma que essas perdas permanentes realmente ocorrem, mas que é difícil precisar com que frequência.

Em seu livro ‘Shockaholic’, Carrie Fisher escreve sobre os efeitos positivos da ECT, mas diz que um dos fatores negativos sobre a terapia é justamente o “apetite que a ECT tem pelas memórias”.

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